terça-feira, 24 de abril de 2012

O hoje

Abri a janela para ver o céu azul brilhar, anunciando a beleza do dia. O vento já não estava tão frio, havia gente na rua, havia gente sorrindo. O elevador não funciona, uso as escadas, 7 andares para pensar na vida. Na portaria, mais escada. O jardim acaba de ser regado, o cheiro de terra molhada completa a perfeição da manhã atrasada. Andando em direção à esquina, via a montanha pálida atrás do shopping. Dobro a rua para ver o ônibus passar apressado ao meu lado, nem tento correr. Pegar o próximo não vai me matar.

Pressa, para que tanta? Descobri a vilã das minhas noites de sono agitadas. Não quero ter tanta pressa. Bastou aceitar perder o ônibus para que a calma me invadisse e a caminhada até o ponto se tornasse muito mais prazerosa. Adeus corridas por cada segundo, correr atrás deles me impede de vivê-los. Não quero correr pelo tic-tac! Quero aproveitá-lo, saboreá-lo, deixar que o momento me absorva apenas para ele. Que o amanhã não me roube o hoje.


segunda-feira, 23 de abril de 2012

Malandragem

Ainda novinha o Rio me trazia "um qualquer coisa" de estar em casa... perfeitamente adaptada. Terra de malandro, e malandrinha sempre fui.

Andando leve, de mansinho, respirando o ar quase que mais devagar, para buscar o seu cheiro, seu frescor e seu gosto.

E o carinho especial pelas praças cresceu com a descoberta do samba e suas rodas. Não há malandro sem praça, não há praça sem seu malandro.

Malandra na vida como estilo e opção. Não malandra que não faz nada, mas malandra que faz as coisas em uma outra batida, um outro tempo, uma outra onda ou estação.

A malandragem me faz bem, no Rio então é a cura de qualquer problema, esquecimento de qualquer chateação, é a volta dos dias amenos eternamente passados na brisa de fim de tarde.

Além disso, todo malandro tem um ar de maluco, e maluca já assumi por aqui que sou...

E na malandragem fui moldando meus gostos e desgostos, amores e amantes, rostos e dorsos, dias e noites, livros e sonhos.


"Eis o malandro na praça outra vez
Caminhando na ponta dos pés
Como quem pisa nos corações
Que rolaram nos cabarés

Entre deusas e bofetões
Entre dados e coronéis
Entre parangolés e patrões
O malandro anda assim de viés

Deixa balançar a maré
E a poeira assentar no chão
Deixa a praça virar um salão
Que o malandro é o barão da ralé" - Chico Buarque

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Pelas frestas do abismo

Sinto me faltar o chão, desvio o olhar para baixo e vejo o vazio.
Infinito aberto nas frestas do abismo.
O medo me invade. Vou cair?
Flutuo no ar, como que salva sem pedir.
Grito por socorro? Grito que me soltem?

Quem está comigo? O medo da queda...
"Vamos, me solte...", vontade maluca de aventura!
Balanço os pés no alto, esperneio.
Imploro que me deixem cair em devaneio.
De repente, a sensação da gravidade me atinge...

Acordei.

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Silêncio Misterioso

Perguntas, respostas, confissões e verdades.
Tardes às claras, de conversas longas, abertas, rasgadas.
Todas as cartas na mesa.
Não. Não quero saber tudo, não quero escutar tudo, não quero insistir muito, não quero que me confesse todos os segredos, não quero confessar os meus.
Quero escutar o som do silêncio, do silêncio que conserva o mistério reconfortante, do silêncio que protege, silêncio que serve de combustível.
Mistério que me leva de volta, sem vontade de com ele acabar.
Todos têm, como a lua, o seu lado escuro, que não pretendo iluminar.
Cultivo um encanto por essa escuridão, conservo um carinho pelo misterioso, amo o silêncio que vem me acompanhar em dias amenos.
Talvez aprenda a silenciar um pouco para escutar o que o mistério vem me dizer.

sábado, 14 de abril de 2012

Lua Amarela

No céu preto-noir-pupila, meia Lua me sorria
Metade amarela, metade escondida na escuridão
Era um sorriso sem gato
Conselho sem direção
Resposta para criar perguntas

Estava a Lua amarela e sorridente
Do outro lado da passagem
Lá onde havia liberdade
Lá onde os gatos pardos são especialmente felizes
Onde ser maluco, é ser normal

terça-feira, 10 de abril de 2012

Tempo




Cada relógio da torre da prefeitura marcava uma hora diferente. Cada um o seu tempo. Não gosto que me apressem, não gosto que me atrasem, costumo atrasar por conta própria. Gosto de correr com tempo sobrando, gosto de enrolar na cama no domingo de manhã.

Via os relógios da torre pela janela da faculdade, enquanto o Thiago dizia algo sobre não ser o mesmo tempo por motivos da física. Nem dentro de mim há apenas uma hora certa, não precisa a torre se impor tal desafio. Tenho meu tempo de chegar, as vezes o de partir, tenho o tempo de me afastar, o de correr pro abraço, e tempo de esperar que o vento vire.

Tenho tempo de sonhar, tenho tempo de chorar, tenho o tempo de tentar esquecer. Tenho tempo de sorrir, tenho tempo de brincar, tenho tempo de dizer quanto gosto de você. Tenho tempo de sentir o tempo passar. Com os anos vai ficando a bagagem extra que carrego, sobra apenas o essencial.

A cada ano perco um pouquinho do que trazia, o tempo leva o que quer, mesmo que eu me agarre com força às alças. Mas o tempo deixa lembranças, mensagens, o tempo ensina. Viver cada dia intensamente, lembrar de todos com alegria, não se arrepender do que fez, só do que deixou de fazer...não quero deixar de fazer nada.

Tempo, tempo, tempo...que não seja tempo perdido, somos ainda tão jovens e o sol sempre volta amanhã. Afinal, o tempo não para e ainda roda de repente, resta-me correr atrás dele, aprendendo.


sábado, 7 de abril de 2012

Seis

Vibra uma, duas, três, quatro, cinco, seis.
Deixa soar. Curte uma de cada vez. Curte todas no acordar.
Cada uma diferente, e ainda mudam se apertar.
O que fazem no braço, faz sentir no coração.
Cuidado.

Uma, duas, três, quatro, cinco, seis. Costumam ser só essas.
Só costumam.
Finas meninas, firmes, sonoras, vibram ao toque.
Vem a base me arrastando, vem o solo me iludir.
Cuidado.

Carinho em uma, duas, três, quatro, cinco, seis.
Se alegram as escolhidas para no mundo estar.
Vem a onda mecânica mais doce que se pode ouvir.
Esperam as outras sua chance de brilhar.
Cuidado.

Toca uma, duas, três, quatro, cinco, seis.
São seis cordas, só uma aventura.


quinta-feira, 5 de abril de 2012

A nuvem e a montanha


A montanha se esforça, se empurra para cima, querendo alcançar, beijar, o céu. Suas curvas tentam incessantemente conquistar nuvens e estrelas, seduzi-las.

O Sol a banha em laranjas, vermelhos e púrpuras, mas ela ainda quer mais.

Querida montanha de Minas, por favor olhe para o vale que a ama, e esqueça o céu inalcançável! Ela quer o céu porque não o tem.

E fica a montanha charmosa a se exibir para o céu. Como é insistente, insinuante, como é boba.

Hoje, da janela do ônibus, vi tudo o que queria ver! Uma nuvem enorme abraçava a montanha, que abraço gostoso deve ter sido, uma nuvem macia e branquinha. Enfim o abraço com carinho que a montanha merece e sempre mereceu.

Que manhã feliz!

terça-feira, 3 de abril de 2012

A Lagarta II


Alice não sabe mais quem é, de tanto mudar em um só dia. É difícil ter todos os tamanhos imagináveis (menina, moça, mulher?) em apenas algumas horas.

Tenta explicar que as mudanças a impedem de responder a primeira e insistente pergunta da Lagarta, que anda meio viajando na fumaça.

Completa dizendo que talvez a Lagarta a entenda quando entrar no casulo e virar borboleta.

É isso, para virar a borboleta talvez tenha de entrar no casulo.

Talvez tenha de pensar mais quietinha e no que está mais próximo, talvez tenha até de pensar menos.

Talvez viajar seja o melhor casulo que existe, deixar todas as loucuras habituais para trás e pensar diferente.

Ou talvez não, talvez o casulo não precise ser de isolamento, de pensar sozinho, de parar o resto para "só" assim mudar.

Talvez meu casulo seja justamente uma explosão de coisas novas que promovem uma mudança maluca, que espero que acabe bem.

Lugares novos, gente nova, novas leituras, novos desafios. Novas formas de ver a vida.

Seja qual for a forma de mudar, acho que tudo já está mudando.

Para Jussara, a fonte das minhas mais recentes leituras, que eu espero que se torne uma nova companhia !

E para a Débora, minha amiga desde a Vila Marista, que tantas mudanças minhas já assistiu !

Feliz Aniversário =)


domingo, 1 de abril de 2012

Primeiro de Abril

Então eu acordei ainda com sono, levantei da cama ainda dormindo, cambaleei até a porta e desci as escadas ainda sonhando. Sentei na mesa pensando se estava ou não com fome, comi muito na dúvida. Toquei um pouco, e um pouco mais, e soprei enquanto os dedos corriam até se cansarem. Toquei procurando o som com o qual sonhava, mas ainda não o encontrei.

Tocar e ler no domingo, não peço nada mais. Eu, minha clarineta e um bom livro, pode nos deixar sozinhos, por horas a fio não vou incomodar. Decidi não incomodar mais, vou ficar quietinha, na minha, com as companhias frequentes de músicas bobinhas escolhidas a dedo.

Sei que posso ser difícil, principalmente quando quero, então nada melhor do que sossegar e dar sossego a quem merece. Mentira, afinal hoje é dia ! Que sossego que nada, quem procura Alice dela não se livra tão facilmente, vá sonhar você também !